sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Bertioga-Maresias - atleta quase morre

Repassando para que os colegas tomem conhecimento...
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Relato de um pesadelo  
Meu marido quase morreu correndo seu trecho na corrida de revezamento Bertioga-Maresias organizada pela Companhia de Eventos.

Sempre malhei, fiz academia, corria as vezes, fiz yoga etc.  Sempre procurei ter uma vida saudável, mas sem radicalismos. Logo após o nascimento do meu filho , há 1 ano e 10 meses começei a correr  provas. Corri provas de 10km, de 15km, meias maratonas, provas de revezamento, corri a maratona de Barcelona em 3 horas e 54 minutos. Sentia falta de companhia , queria passar essa adrenalina e energia boa que a corrida proporciona e resolvi dar de presente do dia dos namorados para o meu marido um mês de aula particular com meu treinador.
Ele já fazia musculação há tempos, as vezes corria na praia da Baleia comigo, mas não tinha esse pique e vontade de treinar mais forte. Começou a fazer aula em julho, começou a se empolgar com seus tempos, ele era bem mais rápido do que ele imaginava .. em 2 meses ele já tinha tempo estimado de 10 km pra 46 min. Além da musculação corria  3 vezes por semana, uma de tiro, uma de longo e uma de resistência, subidas etc.  Nos inscrevemos para uma prova de 10 km em SP da Adidas, mas estava sol e preferimos viajar. A corrida Bertioga Maresias seria sua primeira prova. Faria em sexteto, o trecho a ser feito seria Jureia ao final de Juqueí.
Na semana anterior ele ficou com gripe forte, tomou Naldecon a semana inteira ( o de dia e o de noite), ficou com tosse, tomou xarope, não fez musculação com personal, não foi na academia, não correu, a fim de se recuperar para a então primeira prova. O polar tinha acabado a bateria e ele não sabia usar o Garmin. Não definiu uma estratégia de prova junto com o treinador, simplesmente foi pra correr e chegar o mais rápido possível.
No sábado dia 23 acordamos bem cedo e saímos de Sao Paulo rumo a Bertioga . Deixei ele lá para encontrar sua equipe e fui até em casa deixar meu filho e babá em nossa casa em Camburi. Eu ia correr em outra equipe e fui direto para Juqueí para correr meu trecho. Eu ia começar a me aquecer quando recebi a ligação de que o Rafy tinha passado mal e para eu ir para o posto de atendimento de Boiçucanga. Quando cheguei lá, vi meu marido em coma, com contraturas musculares horríveis e condições completamente precárias de atendimento. Ele convulsionou por 55 minutos initerruptos,  felizmente foi socorrido por uma médica corredora que não sei o nome e a quem gostaria muito de agradecer, e aos colegas de equipe até que finalmente chegasse a ambulância da prova que o levou para o PA . Tentamos um resgate com helicóptero UTI, mas não tinha teto para pousar. Meus sogros estavam em Juquei e acompanharam todo o drama. A ambulância da prova foi acionada e demorou mais de uma hora e meia para chegar e quando  a médica da prova disse que estava ainda fazendo residência, falou que não tinha condições nem experiência para leva-lo. Depois de duas horas chegou a ambulância solicitada pelo PA e fomos para o Hospital de São Sebastião, o caminho foi tortuoso e  ele se debatia . A médica de lá disse que eles estava em estado muito grave e que nós precisávamos da um jeito de tira-lo dali.
Através de bons contatos e muita boa vontade de cunhado, amigos etc. conseguimos que um helicóptero biturbina ( que tinha condições de pousar) levasse médicos e equipamentos do Einstein para atender o Rafy lá, algo que foi imprescindível para que ele pudesse sobreviver. Eles entubaram ele e o deixaram em uma condição minimamente estável para voltar de ambulância de São Sebastião para o Hospital Albert Einstein em São Paulo. A viagem foi longa e difícil e enfim após 10 horas e 20 minutos das convulsões e de todo pesadelo logístico e operação resgate digna de filme holliwoodyano nós conseguimos finalmente chegar em um lugar com infra estrutura.
Foi direto para a UTI , fizeram ressonância e a boa noticia é que ele não havia tido nenhum dano cerebral. - algo muito positivo levando em conta o tempo que ele passou convulsionando.
A má noticia? Todo o seu corpo havia sido atingido, os rins e o fígado não funcionavam, as plaquetas chegaram a 5.000 ( quando o normal é de 150.000 a 400.000), as enzimas musculares chegaram a 400.000  quando o valor de referência é 170. A situação era muito grave e preocupante e os médicos ficavam assustados com a quantidade e intensidade de alterações que o corpo dele apresentava. Era como se tivesse dado pane , tudo em colapso total. 
No domingo a noite ele acordou, passou dois dias muito confuso e graças a Deus a parte mental, a fala , os movimentos foram voltando ao normal. Depois foram muitos dias de angústia, expectativa e milhoes de exames até que seus  orgãos começassem a responder e a se recuperar.  A pneumonia está melhorando .Os exames de funcionamento dos orgãos ainda seguem alterados, ele terá que permanecer um bom período longe de atividades físicas até que as fibras musculares se reconstituam . O fígado e o rim ainda levarão um tempo até que voltem ao normal e esperamos que com o tempo lee possa ficar 100% recuperado.
Foram 5 dias de UTI, 4 cias de semi intensiva, e esperamos que mais 4 de quarto normal ( a previsão é essa, mas ainda estamos aqui).
A explicação médica de um dos maiores nomes da medicina- Rabdomiolise, lesão muscular seríssima que pode acontecer com pessoas que sofrem terremotos, maremotos, esmagamentos etc, mas embora raro também pode acontecer  por excesso de esforço físico , potencializada por gripe, Naldecon e a DEMORA NO ATENDIMENTO. 

Esse é o relato de uma ocorrência grave que por muito pouco não levou a morte um cara saudável de 37 anos , esportista, casado, com filho e com todo a vida pela frente. Isso aconteceu com ele, mas poderia ter acontecido com qualquer outro esportista. A gente sempre acha que não vai acontecer com a gente, mas  uma junção de fatores desfavoráveis  pode realmente desencadear uma tragédia. Felizmente temos boas condições financeiras, ele está no melhor hospital da America Latina com os melhores médicos acompanhando, Deus foi muito generoso, ele teve muita sorte e embora tenha sido por pouco, ele tenha batido na trave, ainda não era sua hora de ir para outro lado. Renascimento total e oportunidade única.

Quais são as lições e falhas?

Falhas em relação a organização da corrida:
- Demora ABSURDA no primeiro  socorro, demora da  transferência do PA que no final nem pode ser feita  por  falta de equipe médica especializada, - é uma irresponsabilidade uma corrida desse porte, que é realizada em local difícil, com subidas íngremes, areia fofa ,calor e sem infra estrutura não oferecer o mínimo de segurança para os atletas.
- Uma prova com 75 km deveria ter no mínimo 2 Ambulâncias UTI completas, além de outras ambulâncias convencionais com paramédicos.
- Falta de fiscalização com comunicação via rádio entre os trechos para o caso de acidentes.
- Falta de marcação de kilometragem - isso impossibilita o controle de ritmo através de cronometro e nem todos têm Garmim.
-Estrutura de hidratação precária.

Lições para sempre:
-Definir com seu treinador batimento cardíaco, ritmo e hidratação atentamente e seguir isso até o fim.
-Usar Polar ou Garmim (principalmente  atletas iniciantes em provas, que ainda não conhecem exatamente seu corpo e seu limite)
-Estar bem,  se sentir 100%,- NUNCA CORRER SE ESTIVER COM A RESISTÊNCIA BAIXA.
-Sempre consultar um médico antes de tomar um medicamento ( mesmo que um aparentemente inocente antigripal) pré prova.
-Consultar e exigir um esquema de segurança  para as provas. ISSO DEPENDE DE TODOS NÓS CORREDORES.
-Correr com consciência, responsabilidade, prudência e limite, pois algo que supostamente é pra fazer bem para a  nossa saúde, pode ser transformar em um verdadeiro vilão.
-Fazer check up regularmente

Espero que esse relato possa ajudar a transformar as corridas de rua , de serra, de mato e de todos os tipos em algo mais seguro e que os atletas e treinadores possam ficar mais conscientes e  responsáveis (eu me incluo nisso, pois sempre quis correr mais e mais rápido que a planilha indicava, sempre tendi mais ao exagero do que ao equilibrio e percebi que isso pode custar bem caro), portanto nunca é tarde para rever conceitos e melhorar.

Julie Kamkhagi
Acte Sports

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Opinião do Fabão: nada justifica os problemas no atendimento, mas bem que o atleta podia ter adiado sua estreia em corridas, já que não estava bem.


ua

13 comentários:

Fábio Namiuti disse...

Parabéns pela iniciativa de publicar esse depoimento importante, Fabão.

Eduardo Acacio disse...

Sem duvidas, já corri por lá em trÊs ocasiões e a prova e SOLO para TODAS as categorias, o suporte é o minimo possível, por isso eles exigem CARRO de APOIO e BIKER, para se isentarem de RESPONSABILIDADE.
Na verdade ultimamente estamos pagando para SOFRER nas MÃOS de GENTE SAFADA e DESPREPARADA a YESCOM é um destes exemplos.

Desejo a Plena Recuperação de seu Esposo e Sucesso Sempre !!!

http://porqueeucorro.blogspot.com/

BMW disse...

Caramba que tragédia hen...
Eu há muito tempo tenho vontade de participar desta prova. Mas tenho receios devido a dificuldade do percurso, e olha que já corri duas maratonas. O cara foi logo na primeira e ainda doente !? A organização também pisou na bola no primeiro atendimento hen.

Corridas e Maratonas disse...

Acredito ser importante esta divulgação, principalmente no que tange as responsabilidades individuais e coletivas. O regulamento da prova é bem claro, e quando se escolhe ir para um tipo de prova desse porte, temos que no mínimo levar em consideração tais contingências. Eu corri essa prova, em trio,realizei 3 trechos incluindo o último, que é o mais difícil. Irei o ano que vem nos solo, e por isso estou me preparando( 1 ano de prepração, sendo que tenho uma bagagem de 10 anos em corridas, 3 maratonas, etc..). Nunca andei numa prova, sou competitiva, e tenho minhas opções, agora diante daquela serra, a prudência tem que imperar. Era impossível para mim correr todo o trecho de subida.. temos que nos avaliar antes e durante a prova.
SE demorou o atendimento, a organização precisa reavaliar tais situações, pois poderia acontecer com qualquer um, indiferente das condições que já se encontrava o atleta. Contudo, a irresponsabilidade de ter ido para uma prova naquelas condições faz a gente refletir tb..
è isso ai! melhoras e que sejamos reflexivos e prudentes.
Pri
http://www.corridasemaratonas.com.br

Jorge disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jorge disse...

Fabão obrigado por nos informar, triste é notícia, mas graças a Deus que o esposo da Julie está bem...Bom hj em dia a corrida virou moda e eu sempre bato nessa tecla, tem muitos corredores que pensam que basta calçar um par de tênis e sair por aí correndo, não é bem assim não, primeiro antes de correr tem que passar por exames médicos e muitos na tentativa de correr acabam acontecendo isso, infelizmente aconteceu com o esposo da Julie e continuará acontecendo isso, pois as pessoas tem que se conscientizar em Julho de 2010 também aqui na Maratona do Rio aconteceu a mesma coisa que aconteceu com o esposo da Julie o amigo Fábio de 62 anos daqui do Rio quando chegou entre os km 29 e 30 teve um mal subito e passou mal e graças a Deus foi socorrido rapidamente só que no caso dele veio a se agravar falecer, pois o diagnotisco do médico foi a mesma coisa Rabdomiolise, muito triste isso...Mas o que me revolta também é com a organização do fato de uma prova dessa longa e não ter médico experiente e mais ambulâncias...Um verdadeiro descaso com o corredor e suas respectivas famílias...Alguma coisa tem que ser feita é inadimissivel que isso venha ocorrer...

Um abraço,

Jorge Cerqueira
www.jmaratona.com

Jorge disse...

Eu de novo, fatos como esse deve ser publicado para que os corredores tenham consciência, pois correr uma prova de 10km é uma coisa, pois correr prova longa e com um percurso dificil exige muito do atleta e é por isso que o atleta tem que estar com os exames hj em dia...Pois na Ultramaratona de 24 horas da CORPORE é exigido um atestado médico e caso o atleta não leve, não corre e inclusive na própria prova da Ultra dos Fuzileiros, o Doutor Milton correu 24 horas e no simpósio técnico ele falou que se visse algum atleta passando mal durante a prova iria retirar o atleta na mesma hora e nessa prova tinha vários médico e ambulância e também disponível para no caso de acontecesse uma emergência mais grave tinha um helicóptero ao nosso dispor...

Valeu...

Jorge Cerqueira
www.jmaratona.com

Jorge disse...

Eu de novo, fatos como esse deve ser publicado para que os corredores tenham consciência, pois correr uma prova de 10km é uma coisa, pois correr prova longa e com um percurso dificil exige muito do atleta e é por isso que o atleta tem que estar com os exames hj em dia...Pois na Ultramaratona de 24 horas da CORPORE é exigido um atestado médico e caso o atleta não leve, não corre e inclusive na própria prova da Ultra dos Fuzileiros, o Doutor Milton correu 24 horas e no simpósio técnico ele falou que se visse algum atleta passando mal durante a prova iria retirar o atleta na mesma hora e nessa prova tinha vários médico e ambulância e também disponível para no caso de acontecesse uma emergência mais grave tinha um helicóptero ao nosso dispor...

Valeu...

Jorge Cerqueira
www.jmaratona.com

Jorge disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Bons Km disse...

Lamentável...
Boicote a provas mal organizadas é a solução...
Bjos
JU

claudio dundes disse...

Me solidarizo ao sofrimento da familia. Estimo melhoras. Etc etc...

Mas posso falar de minha experiência.

Quando meu melhor amigo e primo se inscreveu para o 5º Desafio da Mata Atlântica, eu, sem ele saber, entrei em contato com a organização da prova.

Fiquei muito satisfeito com as explicações prévias. Explicaram-me, por exemplo, que devido a grande abertura da prova para caminhantes (eu fui um deles) haveria um cuidado rebrobrado neste aspecto.

E o que vi lá, estava de acordo com o que foi me prometido. Ponto!

Outra coisa.

Eu prometi à Organização CORPORE que não iria participar de nenhuma prova dela de 2010, por causa do aumento do preço. Mas sempre recomendei (E CONTINUO) as provas dela a todos os novatos. Na tradicional prova da sansung, haverá muitos corredores, de vários ritmos diferentes, correndo com rádio para que possam identificar pessoas que precisem de cuidados médicos e, DE IMEDIATO, providenciar o devido socorro. Ponto positivo para a CORPORE.

Mas exigir que uma prova com as caracteristicas da Bertioga-Maresisas tenha um atendimento sofisticado e em tempo real É ALGO QUE DEVE MUITO BEM REFLETIDO

Ressalto meus sentimentos solidários ao infortúnio do atleta.

Um grande abraço do Claudio Dundes

Joel dos Santos Leitão disse...

Aqui há aspectos que devem ser considerados.
1 - é fato que a organização das provas deixa a desejar. Independentemente das cláusulas de regulamento que eximem essas empresas de qualquer responsabilidade, o mínimo que se espera é um médico competente para atender qualquer eventualidade. E por competente entenda-se médico com experiência nesses tipos de competições;
2 - O atleta correu apenas um trecho que, diga-se, é considerado difícil. Provavelmente correu com muita tensão, pois se de um lado sabia que estava debilitado, por outro tinha assumido um compromisso com a Equipe e não quis decepcioná-los. Esse aspecto psicológico, de comprometimento a qualquer custo, é perigosíssimo, e muitas vezes nem o treinador consegue perceber. Que o digam fatos envolvendo atletas profissionais que até gravidez conseguem esconder!
O que eu sugiro numa situação como essa é que o atleta seja franco com a Equipe, dizendo que está mal, mas que gostaria de correr, embora o fará numa intensidade bem menor do que acredita que poderia. Se a Equipe disser que tudo bem, ele corre no seu ritmo, sem preocupação com tempo. Caso contrário, é melhor não arriscar. E foi exatamente isso que aconteceu, ele acabou correndo o risco, como muitos de nós corremos o tempo todo.

Enfim, o risco na prática de atividade física, seja ela qual for, sempre existirá, e por isso que o treino é sempre o melhor caminho, pois é ele que fornecerá os elementos para ao menos termos uma idéia de até onde podemos chegar.

Agradeço a oportunidade deste post, pois nos leva a refletir e repensar nossos treinos, provas inscritas, objetivos etc.

É um relato muito triste, mas fico feliz em saber que no final tudo deu certo, e até que as sequelas podem ser revertidas.

Joel

Roby Rei disse...

Lamento pelo acontecido, e graças a Deus, está tudo bem agora.
Infelizmente estamos vivendo em um mundo, onde as pessoas apenas se preocupam em ganhar dinheiro.
Vejamos pela São Silvestre:
20.000 atletas pagantes x R$ 80,00 (minimo)= R$ 1.600.000 + PATROCINIOS + DIREITO DE IMAGEM VENDIDO PELA NOSSA REDE GLOBO A OUTRAS EMISSORAS DE OUTROS PAISES.Em troca, pagasse um misero prêmio aos primeiros colocados,e um carro zero (que é DOADO pela patrocinadora FIAT) e os outros atletas que não fazem parte da ELITE, mas que são os únicos responsáveis pelo "espetáculo" na Av. Paulista, levam um kit, com um suco quente, uma maça, que muitas vezes estão estragadas, uma camiseta horrivel e uma medalha cretina (a minha já enferrujou).
Mas o povo brasileiro tem memória fraca e não sabe protestar, não tem união.
Eu não corro mais a São Silvestre, e agora em diante não correrei mais a Bertioga Maresias ( corri duas vezes solo, e na ultima fui 7º colocado no geral, pra sair de lá com medalha simples).
Realmente é uma prova que deixa muito a desejar em tudo.

Abraços e melhoras.